sábado, 8 de agosto de 2015

desabafo

Sou bobo da corte porque sou
livre
louco
insubmisso
não caio na tentação do poder
e nem perco a cabeça
na lâmina que cega
Sou a velharia mais nova que há
e me protejo de mim
apontando o eu no outro
e
pior
o outro em mim
patético
ridículo
bufônico
derrubo máscara
me desnudo
poético
em nome do mais importante que existe
que é NADA
mais importante que nós
E nós
somos um
Não trabalho em equipe
rio da equipe
esculacho a equipe toda
porque são um bando de civilizados
tentando não parecer primatas
(mas se coçando e caçando pulga )
Mas procedo das cavernas
e só não arrasto mulher pelos cabelos
porque gosto de homem
(e de um carinho de vez em quando)
Quero me tatuar a mim mesmo 
pra nunca me esquecer de que o corpo morre
e que não sobra NADA
comida serei dos bichos que mais desprezo
[depois dos homens]

Não sou especial
sou escória

Não sei ser sério
tentei e GRAÇAS A DEUS não consegui
eu canto num templo que não chamo de meu
e sou torto de natureza
minha essência
sinto
minha essência se vaporizar
quando tento me corrigir
e aí descubro que o certo é o errado
e que ta errado ser certo
porque o certo não existe
e aí eu me dou uns tapas
pra voltar a ser burro
quando começo a ficar inteligente
- demente!

Viva a imperfeição magnífica
diz um desesperado bêbado
que ela é a cura que vem das estrelas
o que temos que fazer é engolir
e arrotar prazer!
Não há cima ou baixo
que bata o 
meio!
É no meio que a gente se desenrola
é no meio que a gente se enrola
é no meio que a gente se mete
brinca dando volta na Lua
achando sabemos
Sabemos o que, meu deus?
NADA
Porra nenhuma
caguei pro saber
ele só sabe escravizar
humilhar
rebaixar,
alguém há de ser menosprezado,
e
como não sou nada
aponto meu dedão pra todo mundo
e enfio ele no meio do meu próprio cu
pra me lambuzar
de humanidade
e a pressão baixar
e tudo se explodir num grandessíssimo gozo
e então eu cair
dormir
e sonhar realidades
realidades subliminares
que nunca irão acreditar
só eu
só eu.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Topo

Os degraus eram intermináveis, como o fôlego parecia ser também. Não havia outra coisa senão a meta, o topo, o ante-além-pós. Passo sobre passo marcava a chuva salgada que despencava da testa.
   Um desfile de infinitas portas, janelas, corredores sombrios e luminosos, aberturas por onde passava todo tipo de criatura, paisagens transcendentes de jatos de águas límpidas, rios cristalinos de pássaros coloridos e luzes mirabolantes de movimentos eternos, monjolo de sombras, barcas do inferno, entrada de Pasárgada, caixas de Pandora, ilhas perdidas e castelos de muitos contos passava pelos lados de seu corpo e de sua percepção sem que fosse notado pelos olhos que se mantinham focados.
   Era lá! Só lá existia para aquelas pupilas que pensavam Sol. Aos poucos a distância diminuía e o fôlego adrenalina. Quanto mais perto, mais força e mais e mais perdidas.
   Finalmente, então, tocou o topo. Os joelhos se içaram, os olhos pousaram e, de repente, tudo, TUDO parecia desimportante. Esfacelava-se diante de não sabia o que o sentido do esforço, o esforço da busca. A respiração ainda não chegara, e não chegaria ao nada-resposta de tantos degraus.
   O topo era vazio, e o céu estava brilhante...

sexta-feira, 17 de julho de 2015

materializar o sentido

ama
teri
aliz
ação
do amor
é 
o que
é o que
afina
l
mate
ri
aliza
o amor
é possível
des
afetar
os medos
os dedos
os credos
ter o
cor
ação
aberto
pra utopia
se manifestar?
Que só vive
quem morre
e só morre
quem vive
e só se molha
quem ta na chuva
e só leva tiro
se se colocou 
no alvo
no perigo 
que mora a benção
a porta do céu
a do inferno
é a mesma
dúvida não faz o barco navegar
quem se fere viveu
quem saiu da casca voou
quem sofreu de amor
se apaixonou
gota é tempestade
tempestade é gota
mesmo garoa ainda é água
e se molhou é porque mereceu
se sofreu é porque doeu
e se doeu é porque envolveu
em algum lugar
amou
ainda que com a unha
amou
que se ama com o calor
com o fervor de um nada
que é só palavra
que esse nada tem potência de tudo
que vira a roda
gira o mundo
perturba tudo
desmorona mundos
abre fundos
cava profundo
e é nada.
É nada? É nada nada!
É tudo
e desse tudo
nasce a existência
o significado
a potência da morte
e o sentido da vida.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Pé na Terra

Que eu encontre o divino
naquilo que não é divino
naquilo que é tolo
banal
ridículo
sujo
pequeno
e descartável
Que eu veja Luz
onde há Sombra
e que se ilumine
a Essência
para que possamos aprender
a enxergar
a discernir
a separar
e principalmente
a Unir.

Amém.

domingo, 14 de junho de 2015

Trator

Estou de mudança
e me arrisco a dizer que sempre estive
mas nunca soube

Ela sempre vinha aos poucos
primeiro um corredor de formigas sutis
que carregava tudo amorosamente

Depois um carrinho de brinquedo
botava as coisas dentro

ludicamente 
me empurrava

Então uma bicicleta
um cavalete e alguns pincéis
que me transformaram e me iniciaram

Uma moto, um carro, um caminhão
e quando eu vi 
já estava lá
não do outro lado
porque não tem lado nenhum pra chegar

Só tem caminho

um caminhão

Me dei conta de que sempre estive de passagem

de repente
me vi pilotando um trator!

tudo precisei ruir
meu altar foi despedaçado
e foi a coisa mais importante a ser citada

então ficou claro
que 
a clareza é o que importa

Estou de mudança e não pretendo chegar
Estou de mudança e o negócio é mudar
Porque hei de chegar
só sei aonde
mas há!

segunda-feira, 1 de junho de 2015

puta vida puta

A puta dor da existência
vadia
trabalhadora
rendida e vendida
nadando com e contra
surfando com o mundo
e consigo
até
alcançar o
sentido!
da vida
a
a
a
a
a
a
ah
puta dor maravilhosa
que vida é essa
puta vida
se torna digna
de ser vivida
se (^)
bendita maldita tenebrosa maravilhosa
pra gozar a vida
dignamente
puta
puta
ser

segunda-feira, 25 de maio de 2015

dedo de deus

Tenho a alma arretada
e o espírito arredio
foram vidas sendo
certo
vidas me preparando
para agora 
e destruo mundos
agora e não mais
não menos
destrono reis
rainhas
quebro coroas
tronos
incendeio reinos
castelos
palácios

templos

tiro deus de cima
e o busco nas profundezas
encontrado livre
livre para ser o que eu descobrir
dentro
tempo
processo
cada 
coisa
de
cada
vez
breve
e
longo

Enquanto
meu corpo é uma festa
grita de prazer
pelo que 
tanto foi
considerado pecado
e olhando para trás 
eu diria que fui levado pelo diabo
mas presentemente
vejo Netuno
dissolvendo as estruturas
trazendo a fé
para um futuro que é só
nuvem
nuvem carregada
nuvem densa carregada
que um dia
quem sabe
desaguará

E amaciará 
a peregrinação por esse 
abismo/deserto
cego
sem rumo em que 
confiar é preciso
guiado por uma sabedoria que desconheço
mas que habita
e sabe mais
muito
do que eu
e tardiamente cedo
cedo porque sim
me faz 
viver
e
ser
sem querer