sexta-feira, 22 de julho de 2016

mercúrio

eu
e meus eus
que viajam em mim

fazem as conexões neurais
me levam
se encontram

e a solitude não é solidão

é momento é
o meu  melhor rebento
é quando estou só
que estou comigo
só eu 
e meus eus
que viajam em mim

encontram caminhos
encontram destinos
meu punho soca o ar BREQUE

- eu
e meus eus
que viajam então

e sabem de tudo
navegam futuros
desvendam passados BREQUE

só eu
e meus eus
viajando
viajando em mim

seguros do mundo
seguros de tudo
incapazes de se bastarem em si

eu
e meus eus
eu meus eus
viajamos em mim

pacíficos
restritos
resolutos então

só eu meus eus
eu meus eus
viajando em mim
eu e meus eus
eu e meus eus
viajando então
só eu e meus eus

quarta-feira, 20 de julho de 2016

dor

às vezes eu doo demais
contorço minha alma
dou a volta por baixo
e miro o fundo da escuridão

e lá,
bem lá
eu encontro a luz

cada luz maior que a outra...

quanto mais fundo eu procuro
mais eu quero descer
e então tem que parar
pra poder sobreviver.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Pentagrama

É dia de Netuno retrógrado
e a cidade está sem água
o tempo
seco
parede árida
sol amarelo
o mago se droga
e se vê no espelho
das palavras de agora
a caverna de sol em que se enfiara.
Destrincheirei minha poesia
de profundo arcabouço
próximo ao centro,
perto dos monstros
sonsos eles saíram
e dançam comigo
na mata do ritual
com o velho amigo.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

instante

No fluxo de um beijo
o fluxo da vida

sem saber onde vai dar
quem vai interromper
como e por que começou

na infinitude de possibilidades
minha boca encontrou a sua

no fluxo da vida
no fluxo da saliva
a gente se misturou

por alguns segundos
me perdi de mim
você se perdeu também

e fomos aquele instante
quando acabou
passou

domingo, 19 de junho de 2016

endurecer

endurecer
quando os tempos são de mergulhos
endurecer
para que o outro amadureça
perca os apoios
e encontre sua fortaleza
você pode ajudar na polidez da pedra bruta
ou na exposição de seu verdadeiro rosto

segunda-feira, 6 de junho de 2016

que chova!

Palavras não alcançam a explosão
vida interior,
como novidade,
rasteja sob a pele

e abre

e da vazão
necessário
imprescindível
imutável
ciclo da vida
e a gente
nasceu
pra ser nós mesmos


segunda-feira, 30 de maio de 2016

em andamento

Tilapiando informações
faço jorrar canções
e expurgar
como quem espreme uma espinha gigante
todo temer que se alojou na coluna
os fora dilma dos pulmões
e os vai trabalhar, vagabundo que entopiam veias.
Que poeta sereno
num país perigoso
onde quem tenta
morre
quem protesta
apanha
quem rouba
faz?

um poeta doente
de poesia doente
que versa sobre a doença

o poeta esperançoso
que fala dos ciclos
do corpo
primeiro
do corpo
timoneiro
do mundo
do corpo
do poeta mundo

se regenera das chagas
que adquiriu

Eu tava la e vi
sair de dentro
o sangue estancado
em anos de repressão
vi sair na agulha
os fantasmas do medo
da insegurança
da liberdade estagnada
e agora é o corpo
um campo
onde a saúde e a doença
convulsionam

É o meu corpo
estranho pra mim
nasci aqui e quero fugir
me rebelo
vejo-o em domínios trevosos
cancerígenos
agentes
(políticos?)
sugam o que foi duramente conquistado
por anos

esse é o lugar onde cresci
e querem tirar de mim
de nós
esse corpo
esse mundo
que
como ninguém
precisa de tratamento

assim,
quem sabe,
eu possa me sentir país
me sentir corpo
me sentir alma
me sentir espírito
me sentir eu
me sentir você...