segunda-feira, 17 de outubro de 2016

efeméride de 2013

Faltam palavras para dizer as tantas coisas que aqui estão
perambulando em meu ser
feito alma penada
no caminho perdido mas rumado
consciente da caminhada
a caminhada perdida
destinada a se encontrar
Para que não imploda
e para que não exploda
ninguém
falo sobre seu silêncio
e silencio o meu falar...

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

o infeliz do metrô

Todo dia, no mesmo horário, faço o mesmo caminho. Saio às 7h, passo na padaria, tomo meu pingado e pão na chapa, pego uma água pra viagem, cumprimento o cara do caixa, pago com a nota de dez e dou onze passos até a entrada do metrô. São quatro estações até o meu trabalho. Desço na estação, cheia como de costume, contorno as filas, passo os guichês, atravesso o saguão e é na escada que noto alguma coisa fora do lugar.
   No meio do fluxo do sobe e desce, antes da escada rolante, há um homem ajoelhado, com as mãos estendidas, como se em sua testa houvesse uma placa escrito PEDINTE. Vestia uma camiseta verde suja e rasgada e os pés secos saíam por baixo da barra furada de uma calça que era quase um pano de chão. O fôlego fugiu de mim assim que botei os olhos sobre ele e o calor incômodo da indignação subiu pelo meu peito. Não me atrevi a olhá-lo duas vezes. Subi as escadas com um comichão nas minhas orelhas e marchei até o meu escritório. Fiquei com aquele homem o dia inteiro na cabeça.
   Quando entrei na minha sala, me dei conta de que não correspondi ao bom dia da Marli, secretária. Fechei a porta, os olhos, abri a boca, torci meu pescoço e tentei me concentrar nas minhas coisas. Às 10h tive uma reunião e, enquanto o Márcio chato falava, pensei de novo naquele maltrapilho. Só de pensar em lhe dar dinheiro fiquei escandalizado. Que é que aquele sujeito estava pensando? 
   Às 11:45 saí da reunião e ao meio dia já estava pronto para almoçar e o fiz, com aquele velho na mente. Interagi o que pude com meus colegas e tive que tomar um antiácido pra comida descer.
   Às 14h eu avistei da janela um mendigo do outro lado da rua, e fui parar novamente no metrô, com aquele infeliz ajoelhado ao pé na escada. Não sabia por quê ele me incomodava tanto. Visualizei a mim mesmo erguendo aquele miserável pelo que restara de sua gola suja e prensando suas costas ossudas contra a parede, depois me vi estendendo-lhe a mão, me vi dando uma bofetada em seu rosto, me vi até beijando seus lábios. Me deparei, então, com a hora de ir embora e tentei compensar as ignoradas de mais cedo com sorrisos, não foram muito verdadeiros, mas surtiram o efeito esperado, o povo sorriu e eu parti.
   Como uma história já escrita, reencontrei o velho no metrô. 
   Estava ainda naquela posição humilhante. Será que saíra dela em algum momento? Desci devagar dessa vez e reparei que ninguém lhe dava moedas, na verdade as pessoas o evitavam. Quando cheguei mais perto, meu primeiro impulso foi o de gritar "levante-se!" com toda ferocidade que podia reunir, mas não o fiz. Passei por ele e, para a minha surpresa, nossos olhos se encontraram. Por milésimos, esquadrinhei seus grandes olhos verde-musgos, pareciam dois faróis apagados, afastei os meus depressa e segui catraca adentro, o coração aos pulos.
   Não acordei pra trabalhar na manhã seguinte, tampouco me deitara pra dormir, sequer chegara em casa. Era que, daquele momento em diante, alguma coisa dentro de mim passou a esmolar também, e eu não conseguia me concentrar em outra coisa, só em matar a minha fome.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

mercúrio

eu
e meus eus
que viajam em mim

fazem as conexões neurais
me levam
se encontram

e a solitude não é solidão

é momento é
o meu  melhor rebento
é quando estou só
que estou comigo
só eu 
e meus eus
que viajam em mim

encontram caminhos
encontram destinos
meu punho soca o ar BREQUE

- eu
e meus eus
que viajam então

e sabem de tudo
navegam futuros
desvendam passados BREQUE

só eu
e meus eus
viajando
viajando em mim

seguros do mundo
seguros de tudo
incapazes de se bastarem em si

eu
e meus eus
eu meus eus
viajamos em mim

pacíficos
restritos
resolutos então

só eu meus eus
eu meus eus
viajando em mim
eu e meus eus
eu e meus eus
viajando então
só eu e meus eus

quarta-feira, 20 de julho de 2016

dor

às vezes eu doo demais
contorço minha alma
dou a volta por baixo
e miro o fundo da escuridão

e lá,
bem lá
eu encontro a luz

cada luz maior que a outra...

quanto mais fundo eu procuro
mais eu quero descer
e então tem que parar
pra poder sobreviver.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Pentagrama

É dia de Netuno retrógrado
e a cidade está sem água
o tempo
seco
parede árida
sol amarelo
o mago se droga
e se vê no espelho
das palavras de agora
a caverna de sol em que se enfiara.
Destrincheirei minha poesia
de profundo arcabouço
próximo ao centro,
perto dos monstros
sonsos eles saíram
e dançam comigo
na mata do ritual
com o velho amigo.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

instante

No fluxo de um beijo
o fluxo da vida

sem saber onde vai dar
quem vai interromper
como e por que começou

na infinitude de possibilidades
minha boca encontrou a sua

no fluxo da vida
no fluxo da saliva
a gente se misturou

por alguns segundos
me perdi de mim
você se perdeu também

e fomos aquele instante
quando acabou
passou

domingo, 19 de junho de 2016

endurecer

endurecer
quando os tempos são de mergulhos
endurecer
para que o outro amadureça
perca os apoios
e encontre sua fortaleza
você pode ajudar na polidez da pedra bruta
ou na exposição de seu verdadeiro rosto