quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O mundo é tão abarrotado de letras e, no entanto, aquilo que mais diz algo não pode ser exprimido em palavras, traduzido em textos ou tornar-se passível de informação.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Defendei os vossos filhos neste mundo de ilusão

Posso cuspir no prato que tão deliciosamente comi
só por vontade?
Ou é divina ou é maldita
a manifestação
raivosa
pelo tempo que carcome até o que já

passou?

Devo pedir liberdade
pela expressão
ou perdão pela questão que tão
arrogantemente me coloco
mas

devo nada

radicalmente nova a minha ideia de novo?
é novo
ou é ideia?

devo nada mais uma vez
devo nada
o débito ia sendo quitado
enquanto a dívida rodava

devo nada

Devo mesmo me recolher a mim mesmo
-se falo em pequenez manifesto falsa humildade-

Aquilo que é inalcançável
o ideal espiritual inalcançável
e tantalizante
que nos prende a essa roda de ciclos que só se repetem
se repete
giram
dançam
cantam
e tão
deliciosamente
se repetem
Repetem o discurso do novo
enquanto o universo
as estrelas
os planetas
escancaram suas bocas
urrando
babando
implorando novidade
e a gente se repetindo
girando como que presos
roda de sansara
perfeita metáfora
Grande ensinamento
se é o mesmo
se é igual
não é novo
é discurso
e discurso
até os ditadores faziam
e convenciam
e convenceram
e mataram
e morreram
.
Deus me livre

domingo, 5 de outubro de 2014

Falta

Amaré
stá tão distante
quanto o mar

Amadas utopias banhadas em vinho
aprazíveis-são mais que a ideia de
Amor

Mesmo quando a vida que pedi
escolhi
manifesta-se aqui
de intuição ungida
e mesmo seas montanhas
soluaestrela
mesmo tudo meu
falta-me...

. alguém 
a
alguém
.

sofrer a perda
a dúvida
a insegurança
falta-me
o ridículo
falta-me
a tolice
falta-me
dois
falta-me
sem faltar

e eu só me dou
a um
alguém alguém.

não tem conclusão.
é dor que não dói

porque falta...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Soberania

Quando viu o estado de podridão em que estavam as suas coisas, recuou. Piscou os olhos numa triste vontade de materializar a fantasia que traria o passado que seria plástico agora, mas nem assim a decomposição se esvaiu. Deu dois passos em direção a porta, mas ela também estava morta, o olho embranquecido. Andar de um lado pro outro não ajudaria, pois o chão já não agonizava. Não era possível continuar lá dentro com a quantidade de moscas varejeiras que sobrevoavam os móveis. A lâmpada queimada estava repleta de teias, enroscadas em insetos zumbis e uma enorme aranha preta, do tamanho do seu pé, espreitava entre a parede e o teto
   O primeiro impulso foi o de chorar, mas nem isso era possível. Com pavor, agarrou-se em si e permaneceu de pé, convencendo-se de que seria possível transformar a morte em vida, que iria dar um belo trato naquele horror e fazer a vida pulsar bela novamente, com o canto dos pássaros a encher o ambiente de luz, o cheiro de flores ser o perfume permanente dos dias gloriosos que estavam para raiar desse seu impulso, o renascimento corajosamente magistral que construía em seu interior alimentava suas esperanças...
   E então as paredes caíram, levantando uma nuvem negra que exalava morte. Dentro de si alguma coisa também morreu.

domingo, 14 de setembro de 2014

Rito de Morte

Uma chama apaga aqui
Uma vela acende lá
badaladas etéricas
notícia cometa
cobra eficiente
serpenteia nas bocas
nos telefones
nos e-mails
são as mensagens comunicado macabro
... morreu...
... faleceu...
...se foi...
...parou...  
É fim...
e o começo da grande dor
Choram lágrimas de sei lá o que
penam
sentem
e o morto:
inerte
Emerge na vida como nunca antes
tem o contexto
tem o texto
e a família comparece
gente que não se vê há milênios
e se encontra
e se ri
mas ri comedido
que não se ri em velório
qualquer manifestação de alegria pode parecer zombaria
Mas é impagável conhecer a família
tem o mágico-o palhaço-tem a tia católica-a crente-a macumbeira-o primo tatuado-o tio rico-tem quem você nunca viu-aquela que fala que trocou suas fraldas-tem quem não conversa com você-tem quem te elogia-tem os abraços-as palavras ternas-os namorados-e tem o morto
ah é, tem o morto!
e alguém sem noção que diz que ainda pode sentir seu espírito
Energia densa que aos poucos é elevada
e aí tem a cena dramática
tem quem desmaia
quem toca música
quem chora mais alto
quem chora baixo
e tem madrugada adentro
A canseira do defunto em ser velado
e tem o outro dia...

Voltam as visitas
vem as bolachinhas
e o café
os colegas de trabalho
o embriagado
o que reclama
e a obscuridade interna que se vai com o sol do novo dia
E aí... vem papel
vem mestre de cerimônia
vem mais gente
vem mais café
pizza
criança
jogo
calmante
e
blém!
A hora do enterro.
Então o medonho monstro da dor e do sofrimento infinito se levanta mais uma vez
pairando fim do mundo sobre as cabeças
e a comitiva
amparada por promessas de vida eterna
segue rumo ao cemitério
(não sem antes reclamar de algo ou alguém)
E o rito da morte da seu prosseguimento
Já não havia mais choro
e voltaram a chorar
Já não desmaiavam mais
e voltaram a desmaiar
Tudo volta como se não tivesse passado
a velhinha quase surda
faz perguntas desconcertantemente altas
mais vigorosa que o túmulo penetrado
E lá vai o caixão
a alegria
o bom humor
a energia ali é definida
enterra
junto com o corpo
o dia
o mês
e até o ano
Os sinos tocam
Badaladas
a multidão começa a não ter o que fazer
e a consolação arruma seu espaço
É hora de enlutar-se
se vestir preto
colocar óculos
e chorar
mas

para que mesmo?

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Lua Nova/ Saturnando o Escorpião

Me faço poeta na esperança de entender o que me fiz de mim
Me invento em roda
em gira
em rito
Faço de mim o que quero
Sou meu próprio garoto de
programo
me rodo
me chicoteio
me aliso
me masturbo
me amo
me firmo
me engulo
Escrevo, espremo, estrago
pra baforar na noite escura reflexões pra grande bola branca
que está incompleta
como eu

domingo, 20 de julho de 2014

Pax

Repousa em mim um Buda
auto amparado imaculado que
assentado em meu peito contempla a tudo
sereno
Um dourado claruz envolta emanação
E inda diante do caos externo
miscelânea
pensamentos
nada informais
incompreensíveis barulhentos
giramundo com máscara de irreversível
Ele
se
impassibiliza
sorri de mim
para mim
e me crê que retornarei
Pego no éter a compreensão
e quando me dou por ele
me inspiro
e revivo