quarta-feira, 12 de junho de 2013

Polaridade

Exalta-se o recomeçar
quem não desiste
quem renasceu
quem sempre está
quem tem coragem
Exalta-se o ir em frente
O levantar
O guerreiro
O combatente
Aquele que está na frente
Aquele que sabe amar
O que tem paciência
O que tem sabedoria
O que fala bem
O que articula
O bem humorado
O de grande energia
Exalta-se o flexível
o belo
o bonito
o incrível
o barato
Exalta-se a paciência
a virtude
a resistência
a compreensão
a compaixão
a sagração
a atenção
Exalta-se quem sorri
Quem faz bem
Quem tem força
Quem tem brilho
Quem é poético
Exalta-se
Exalta-se 
Exalta-se
Exalta-se o exaltar
E quem não está
exaltado
Onde está?

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Pequeno, gigante

São Caetano está abaixo do meu julgamento
Ao relento da ignorância
Repleto de nada
Mentes hostis
Wannabes
Ilusões
Velhacos
Estagnados
Estão tão abaixo de meu julgamento
Que nem conseguem discordar
Eu nasci nesse lugar
e
Se o carma não me pegar
Hei de partir noutro congar
Amém pra mim
Mas não pra São Caetano
Cidade por baixo dos panos
No ouvir, ser e sentir
Quem é melhor que vocês?
Eu posso responder
mas nunca irão encontrar

Mas não sei que me acontece
Quando vou pr'essa cidade
Me comporto como ela
Deve ser a aura energética
Diluída na alma cética
Que frequenta a igreja
e não tem ética
Quer sempre estar por cima
Exigindo seus direitos (e quem não quer?)
Reivindicando a velhice
Ou
Ostentando a babaquice
Cidade de primeiro mundo
Que, nem sabe, está no fundo
E se não sabe, desconfia

Eu deveria
escrever
Um poema amoroso
Mas me confesso rancoroso
De nem sei o que explicar
São Caetano, meu amigo,
(além dos preços absurdos)
Já me caiu em desuso
Só me serve pra falar


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Vômito

Vivia
perambulando
entre o sagrado e o profano
Desestabilizando
Desequilibrando
numa corda estirada
na lama
nas alturas
Sopando as letras e as palavras
Perdido no caminho
Ansiando uma egrégora
Passado de memórias
Sou rabisco
Vomitando poesia
Se não for... quem disse que não
é?
E?
A quem interessa?
Quem me interessa?
Sou um vulcão
de explosão
concentrada
contida
camadas e
camadas
Bebendo fogo
liberando oxigênio
Sou o
não sei quem sou
Sou o buscar
E o encontrar
E o perder
e o buscar
e o encontrar
e o perder
Se eu buscar
o encontrar
e o perder?
Paralisei
Andei
Avancei
Voei
Desci
Agora sigo me
Desequilibrando
Desestabilizando
numa corda estirada
entre o sagrado e o profano
perambulando
Vivo!
Encontrado!
Eu ando
não vago
Eu faço
não paro
Não sofro
eu saio!
Eu entro
Eu vou
Sou rico
Sou homem
Sou louco
Sou
ninguém...
sou tudo!
Não do conta
mas me iludo
Sou artista
Sou o diabo
Sou deus
e enviado
mensageiro quase errado
Sou só mais um
entre trilhões
Sou aquele que vem da estrela
e quase queimou-se com tanta luz
Sombreai, Senhor
Sombreai
ou
quando chove na minha chama
Sou Luz
Sou Luz
Sou Luz
Sou Libra
Como o mundo
Como o Rodrigo
Como meu pai
Como ninguém
Como tantos...

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Desejo

Hoje eu quero escrever um poema
Todo mundo se apoemou
Também vou me apoemar

Mas que poesia hei de criar?

Já que ela não veio inspirada
Nem mesmo pulsa na alma
Nem é dor de coração

Está toda na razão
Toda no querer
Mesmo sem aquela emoção

Gosto de poesia que sai aos vômitos
Não em cuspidelas
Mas hoje eu
confesso
já to purificado

Que poesia vem assim?

Mas
sem julgamentos
julgo que agora
estou
devidamente
apoemado!

Mesmo que eu goste
Sinto que
agora
Não estou desajustado!

terça-feira, 30 de abril de 2013

Complexo de Bartleby OU Filhos da Lua


- Bom dia, senhor, o que deseja?
     Ele parou e ficou olhando. A bela moça à sua frente lhe encarava com forçado sorriso bondoso. Imóvel, uma sucessão de coisas passava invisivelmente pela sua cabeça, movimentando seus líquidos, a dança dos órgãos, o pulsar das artérias.
- Senhor?
     O sorriso da moça ia murchando, a fila começava a se alongar, as pessoas a olhar, os outros funcionários passavam apressados e confusos ante a cena que acontecia no balcão.
- Senhor, vou atender o próximo.
     Ameaçou. Ele não deu sinais de que vivia. Poder-se-ia dizer que estava morto, não fosse sua firmeza vertical e o brilho nos olhos que, apesar de imóveis, contavam alguma coisa, alguma coisa inapreensível aos homens.
- O senhor pode, por gentileza, se retirar da fila?
     Era outra mulher, talvez a gerente. Ele não esboçou reação. Olho para alguma outra parte de seu corpo e tampouco noto movimento. A gerente passa a mão diante de seus olhos e eles não se movem.
- Próximo.
     Chama calmamente a primeira. Contorno o corpo inerte e faço o meu pedido. Sento-me à mesa e ainda observo aquele rapaz, tentando encontrar em minha mente alguma causa, doença, filosofia, ou qualquer coisa que possa justificar aquela reação. Chego a me assustar com o garçom que deposita meu pedido sobre a mesa.
     Como com a mente fora do corpo.
     A fila, a lanchonete, a rua, o bairro, a cidade, o país, o continente, o mundo todo ia acontecendo como se aquele homem não fosse material. Já estou terminando meu sanduíche quando um grupo de policiais chamado entra na lanchonete e, após umas averiguações e perguntas sem respostas, leva aquela estátua como se fossem decoradores no fim da festa. Ouço vozes exteriores dizendo:
- Deve ser algum teatro.
- Deve ser um louco que fugiu.
- Deve ser alguém querendo aparecer.
     A única coisa que ele devia era respostas. Saio meio perturbado da lanchonete em direção ao estacionamento e dou de cara com a lua. Quero tanto sanar minha curiosidade. Tinha desejado, e agora desesperadamente, que minha vinda à lanchonete tivesse sido um passeio recreativo e não um disparador de pensamentos sediciosos e sensações desconhecidas. Meu coração se aperta contra o estômago e eu sinto que minhas pálpebras se fecharão a qualquer minuto.
- Bom dia, senhor, o que deseja?

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Por que?

O medo que sentia quase o impediu de continuar a seguir em frente. O corredor estava no breu total, com uma temperatura neutra que não dizia nada. Uma luz apareceu e tão rápido sumiu que nem deu pra ter o vislumbre do que o esperava no fim do corredor. As únicas coisas que podia perceber eram as paredes, não tão próximas que o pudessem sufocar, e o chão, por onde ele andava. Mas onde estava o teto? Onde estava a frente, onde estava atrás? Tinha receio até de dar muitas voltas em si para que não perdesse o caminho.
   De vez em quando, ele batia a cabeça na parede, revelando seu incompetente senso de direção.
   Aos poucos, quando cansava de caminhar e caminhar sem que chegasse a lugar nenhum, o seu andar se tornou febril, começou a ter espasmos de pensamentos rebeldes que, desesperados, assaltavam sua mente. Ofegante, então, começou a correr, a suar, a tropeçar, desembestar as pernas, até cair e derrapar em direção ao nada.
   Então, uma luz surgiu lá no fundo, pequenina, revelando a amplitude do corredor, vinha verde, mas sua luz era tão única que não iluminava mais do que o corpo que a carregava.
   Ele não sabia o motivo, mas nem chegou a levantar do chão, esperou que a luzinha pousasse em seu nariz... era um vagalume! 
   Ah... como era bom reconhecer algo para além da escuridão!
   Uma vozinha, vinda talvez do próprio vagalume, num misto de indignação e delicadeza, sussurrou-lhe, para a sua surpresa:
   - Por que?
   De repente, assim que ele caiu em si, o chão desapareceu.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Renascimento


De repente ele estava embevecido com aquela música divina que emanava dos quatro cantos de sua existência. O movimento colorido que aquele som causava, fazia com que algo se desprendesse de si mesmo, revelando uma intensa luz amarela, rasgada por um azul nunca antes visto.
   Toda a escuridão ia se dissipando finalmente, deixando o ar entrar plenamente pelos pulmões, a vida se encontrar e o mar escorrer, levando embora tudo que não lhe pertencia mais. Várias pessoas cantavam, uma multidão, vozes tão bonitas, tão bonitas... Lágrimas saltaram de seus olhos, como se estivessem há muito presas, libertando inclusive o coração...
   Deus!
   Quantas correntes se desfaziam nesse momento, e pareceram assustadoramente eternas, mas iam se desfazendo facilmente, como água mole em pedra dura.
   Ele explodiu, liberando a pressão que sofria seu corpo.
   A luz era tamanha que não era possível permanecer com os olhos abertos, a temperatura era diferente também e agora ele sentia todo seu corpo esfriar. O tempo corria como se nem existisse, era eterno, era cheio de possibilidades, cheio de quereres. Seu corpo se movimentava involuntariamente, como se um espírito de luz o capacitasse para o que estava por vir.
   Quando pode abrir os olhos, percebeu que há muito, muito mesmo, os tivera fechados.